Quando pequena, a filha de Dickens, Mamie, teve o singular privilégio de passar vários dias lendo e descansando num sofá do estúdio do pai, a portas bem fechadas, enquanto ele trabalhava. Ninguém mais tinha tal oportunidade, mas Mamie estava convalescendo de uma doença, era a queridinha do papi e tinha prometido ficar em silêncio. Já adulta, Mamie escreveu uma recordação do tempo que passara no santuário do pai. À medida que Dickens ia mergulhando mais e mais no trabalho, escreveu ela, “evidentemente, sem me ver, ele começava a falar depressa, em voz baixa.” De tempo em tempo, ele se levantava, ainda murmurando, e corria ao espelho, diante do qual fazia várias caretas estranhas. Em seguida, corria de volta à escrivaninha e murmurava mais um pouco. Charles Dickens murmurava sua prosa diante da página. Aliás, até mesmo quando o mestre estava longe da escrivaninha, enquanto “procurava imagens que… queria desenvolver”, ele murmurava as cadências que surgiam, “olhando para a frente, lábios ligeiramente a trabalhar, como costumavam fazer quando, sentado, ele pensava e escrevia”.
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in p. 232 de Oficina de Escritores - Um Manual para a Arte da Redação, de Stephen Koch, WMF Martins Fontes, 2008
na verdade, boa parte deste trecho citado por Koch vem das páginas 161 e 163 de Dickens, escrito por Peter Ackroyd, HarperCollins Torchbooks, 1992